Analisar um novo filme do Homem-Aranha é sempre complicado. Não pela qualidade da concorrência, necessariamente, mas pela quantidade de versões que o personagem já recebeu nos cinemas.
Em retrospecto, depois de assistir Homem-Aranha: Um Novo Dia, penso se os roteiristas dos dois primeiros filmes subestimaram os desejos do público em relação ao amigão da vizinhança ou se essa trajetória de fato fez sentido para o personagem chegar até aqui. A resposta provavelmente está em algum lugar no meio, mas mesmo assim acredito que os primeiros filmes podiam ter trazido uma representação mais memorável do herói.
Homem-Aranha: Sem Volta para Casa flerta com um Peter mais maduro, principalmente depois de utilizar o clássico recurso de amadurecimento do personagem: a morte de um tio (no caso, tia) querido. Ainda assim, essa maturidade parece estar encaminhada, mas não atingida. Homem-Aranha: Um Novo Dia finalmente conclui esse objetivo.
Em meio a uma fase de recuperação do MCU após a saturação de séries e filmes de super-heróis e com Vingadores: Doutor Destino logo na esquina, será que Homem-Aranha: Um Novo Dia traz novos ares à franquia? Confira a crítica completa e sem spoilers a seguir.
História emocionante e fechada

O que mais me preocupava no filme era definitivamente o roteiro. Depois de tantos filmes, a “fórmula Marvel” passou a ficar batida, a ponto de ser possível prever quais seriam as piadas e o timing delas, reviravoltas eram inevitáveis e easter eggs para outros filmes e séries do universo também eram esperados. Homem-Aranha: Um Novo Dia foca no que realmente importa: a história que está acontecendo naquele momento.
Os traumas de “Sem Volta para Casa” trazem as consequências necessárias para Peter Parker compreender o seu papel.
Por mais que boa parte do texto tenha sido desenvolvido pela dupla Chris McKenna e Erik Sommers, que assumiram os outros três filmes do herói no MCU, talvez a ajuda extra de Justin Kuritzkes realmente tenha feito a diferença. Esse é o filme mais sensível do herói interpretado por Tom Holland. Por mais que “Sem Volta para Casa” tenha partes emocionantes, que inclusive levam ao momento em que o herói se encontra agora, o novo filme trabalha essa sensibilidade do começo ao fim.
Outro ponto positivo é que a história é bem amarrada. Os heróis e vilões têm motivações claras e não servem apenas como justificativa do próximo arco de algum personagem. Os easter eggs também são menos óbvios e mais divertidos aqui, como as referências às capas dos quadrinhos do herói. O diretor Destin Daniel Cretton também soube aproveitar muito bem a história, deixando tudo mais maduro, dinâmico e coerente.
Peter Parker vs. Homem-Aranha
Por mais que a atenção do filme não esteja 100% focada no protagonista, principalmente por conta da personagem misteriosa de Sadie Sink, o maior acerto (dentre vários) tem que ser o “novo” Homem-Aranha e Peter Parker de Tom Holland. Parece que tanto o personagem quanto o ator se descobriram nessa nova fase. O dilema da vida dupla se desenrola naturalmente ao longo do filme.
Além disso, parece que finalmente temos alguns traços característicos do personagem de volta. Homem-Aranha se pendurando pelos prédios, utilizando as teias como seu principal meio de locomoção, salvando pedestres e não deixando ironias e boas sacadas de lado ao conversar. A jovialidade do personagem ainda está aqui, mas agora ele tem as preocupações que o super-herói adulto costuma ter.
Os paralelos com o ciclo de vida das aranhas, coisas que já vimos em outros filmes do personagem, aparecem aqui com mais evidência e ajudam a desenvolver a jornada de Peter, além de trazer um tom mais sombrio para a trama.
Mas e a Sadie Sink? Sem spoilers por aqui!
Não posso falar muito sobre a personagem da atriz por aqui para não estragar a surpresa. Fica a dica: quanto menos você souber sobre o filme, melhor vai ser a sua experiência! O que posso falar é que a atriz realmente brilha em seu papel. Sadie dá conta do recado e praticamente carrega as cenas em que aparece. Sua personagem me deixou tão satisfeita que farei uma matéria com spoilers apenas sobre ela. Vem aí.
Agora, vamos falar de participações que já aparecem nos trailers. Justiceiro tem interações muito divertidas com o protagonista, com um contraste claro entre os tons dos personagens que fornece espaço de desenvolvimento para ambos. Apesar de não aparecer tanto, o longa traz um Hulk que, para mim, é a melhor aparição do personagem em anos, com um sentimento de retorno às suas origens.
Como já previsto, o maior peso emocional do filme acaba ficando por conta da relação de MJ e Ned, os amigos de Peter que o esqueceram depois do final do último filme. Eu não havia notado todo o suporte que ambos ofereciam até Peter mostrar a sua solidão em primeira mão aqui. MJ, que para mim infelizmente era uma personagem sem muito propósito, finalmente mostra personalidade e se destaca em suas cenas, com uma sequência em especial muito emotiva e madura. Ned, surpreendentemente, garante um dos momentos mais especiais do filme.
Vale a pena assistir Homem-Aranha: Um Novo Dia?
Esse é um filme que funciona tanto para quem já gostava do Homem-Aranha do MCU, quanto para quem ainda precisava de um convencimento. Ao terminar essa crítica, percebo que “Um Novo Dia” realmente é um bom nome para essa nova fase do amigão da vizinhança. Se em “Guerra Civil”,“De volta ao Lar” e “Longe de Casa” o personagem parecia brincar de ser herói, os traumas de “Sem Volta para Casa” trazem as consequências necessárias para Peter Parker compreender o seu papel.
Sem perder a jovialidade e o coração que o torna um dos heróis favoritos da história da Marvel, Homem-Aranha: Um Novo Dia desenvolve a versão mais interessante do personagem no MCU até agora. A história não é inovadora, mas funciona muito bem sem ser forçada e não deixa pontas soltas. Para fãs de super-heróis, é quase indispensável. Para quem não acompanha, é uma boa pedida que não vai te deixar flutuando nesse universo.
Homem-Aranha: Um Novo Dia estreia dia 29 de julho nos cinemas.
*O Minha Série foi à cabine do filme a convite da Sony Pictures Brasil e da Agência Primeiro Plano