Ícone do site Agência G da Web

VazaBigTech: o novo canal anônimo para denúncias contra big techs

Já está no ar a #VazaBigTech, uma plataforma que promete receber denúncias anônimas sobre abusos, crimes e más práticas de grandes empresas de tecnologia — com foco em transformar essas informações em investigações jornalísticas de interesse público.

A novidade chega com um objetivo direto: criar um canal seguro para quem está dentro ou perto das big techs e quer expor irregularidades sem se identificar. A #VazaBigTech foi lançada pela organização CTRL+Z em parceria com o Sleeping Giants Brasil e pode ser acessada pelo navegador Tor, conhecido por proteger a identidade de usuários na internet.

A plataforma usa a tecnologia do GlobaLeaks, um sistema criado justamente para denúncias seguras. Nele, qualquer pessoa pode enviar documentos, relatos e evidências de forma anônima, sem deixar rastros digitais básicos, desde que siga algumas orientações de segurança.

A iniciativa junta dois projetos com perfis diferentes. A CTRL+Z, anunciada recentemente, atua na articulação de pessoas e instituições para enfrentar o poder das big techs no Brasil; já o Sleeping Giants Brasil é um movimento conhecido por pressionar empresas e combater desinformação e discurso de ódio.

Para Mayara Stelle, fundadora do movimento, a parceria responde a uma lacuna importante. “A ausência de proteção legal a ‘whistleblowers’ (termo usado para definir uma pessoa que denuncia irregularidades dentro de uma empresa ou organização) no país não pode continuar funcionando como um mecanismo de silêncio”, afirmou em post no Instagram do novo projeto. Segundo ela, a ideia é garantir que denunciar abusos não seja um ato solitário. 

Como funciona?

O envio de informações é voluntário e não envolve qualquer tipo de pagamento ou recompensa. Para fazer uma denúncia, é preciso acessar o site vazabigtech.org, de preferência pelo navegador Tor, que ajuda a proteger a identidade do usuário.

Depois que a denúncia é feita, ela não vai direto ao ar: passa primeiro por uma triagem realizada por uma equipe de jornalistas e advogados, que avaliam se há relevância pública e material suficiente para investigação.

Se o conteúdo fizer sentido, ele pode virar uma apuração mais aprofundada, muitas vezes em parceria com veículos de imprensa, organizações jurídicas e entidades de defesa da liberdade de expressão. A ideia é transformar denúncias em reportagens com impacto real.

A plataforma aceita denúncias sobre ilegalidades, violações de direitos, práticas abusivas e outras condutas relevantes envolvendo grandes empresas de tecnologia. O ideal é que os relatos sejam detalhados e acompanhados de provas.

Por outro lado, conteúdos irrelevantes, com discurso de ódio, violência explícita ou material íntimo são descartados automaticamente.

O projeto reforça que denúncias individuais ou sem potencial de responsabilização mais ampla tendem a não avançar. O foco está em problemas sistêmicos, que afetam um número maior de pessoas ou revelam práticas estruturais dentro das empresas.

Mesmo com a promessa de anonimato, os criadores da plataforma alertam que denunciar ainda envolve riscos e, por isso, recomendam cuidados como não usar equipamentos da empresa, evitar redes conhecidas e, se possível, buscar orientação jurídica antes de enviar informações.

O uso do Tor é fortemente indicado, assim como ferramentas complementares de proteção digital, mas, ainda assim, a decisão final de denunciar é individual, e deve ser bem avaliada.

Depois, se uma denúncia avançar, ela passa por checagem, cruzamento de dados e validação de documentos. Caso vire reportagem, a publicação é feita com cuidado para não expor a fonte.

O denunciante pode ser contatado pela própria plataforma para esclarecer dúvidas, mas isso também pode ser feito de forma anônima. Em alguns casos, o anonimato pode dificultar a apuração, mas ele é preservado sempre que solicitado.

O que está por trás?

A iniciativa se apoia em um histórico recente em que grandes crises envolvendo empresas de tecnologia vieram à tona a partir de denúncias internas.

“As maiores crises enfrentadas por big techs foram provocadas por grandes investigações jornalísticas. Os casos Snowden, Cambridge Analytica e Facebook Papers revelaram violações em massa de privacidade e manipulação algorítmica, e só sabemos porque denunciantes corajosos resolveram vir a público com essas informações”, disse Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da CTRL+Z, em post no Instagram do projeto.

A criação da #VazaBigTech também tenta estimular uma mudança cultural no Brasil, onde esse tipo de prática ainda é pouco estruturada, inclusive do ponto de vista legal.

“Eu trabalhei numa dessas empresas e sei que existem trabalhadores de dentro que também estão preocupados com o que está acontecendo. O que queremos fazer, antes de tudo, é fortalecer uma cultura de denúncia. Agora há tecnologia para isso”, disse Daniela da Silva, diretora-executiva da CTRL+Z, no Instagram.

Hoje, o país não tem uma legislação focada para proteger ‘whistleblowers’, mas a principal referência é a Lei 13.608/2018, que trata de denúncias ligadas à administração pública, mas não cobre de forma ampla o setor privado.

Sair da versão mobile